Artigo

REPENSAR O MINISTÉRIO DIACONAL É PRECISO

Que se manifeste quem nunca ouviu uma anedota qualquer envolvendo pejorativamente a figura do diácono. Que se manifeste quem não conhece algum pastor que resiste bravamente à ideia de separar, preparar e consagrar diáconos em sua igreja. Que se manifeste quem não conhece algum diácono que pensa ser o dono da igreja e que pode mandar no pastor.

Permita-me o caro leitor tocar num assunto que deveria estar pacificado desde os tempos da igreja primitiva em Jerusalém. Por isso, a pergunta feita em um dos capítulos do livro “O Diácono Batista” na década de 50 do século passado parece ainda ser pertinente em nossos dias: “Precisamos de diáconos ainda hoje?”. À luz da Bíblia, a resposta óbvia a esta pergunta seria um sonoro sim, mas percebo que passou da hora de repensarmos esse ministério tão importante que em muitas igrejas tem-se descaracterizado com o tempo, por mera inobservância da proposta bíblica em Atos 6. 1 a 6.

Reconhecemos que erramos na demora para a prática de consagração de mulheres ao ministério diaconal. Reconhecemos que continuamos errando ao resistir à ideia de que jovens solteiros possam atuar nesse ministério do serviço. Reconhecemos que erramos ao não fomentar esse ministério em nossas igrejas. Reconhecemos que falhamos na preparação de novos diáconos. Reconhecemos que muitas vezes perdemos o foco, ocupando-nos com ações e discussões irrelevantes, deixando de lado a essência do ministério para o qual fomos chamados. Como consequência, as viúvas e os necessitados foram desprezados. As famigeradas “mesas” do Senhor, do pastor e dos necessitados foram esquecidas.

Estamos vivendo a segunda década do século XXI, mas constatamos que muitos diáconos ainda estão com a cabeça lá atrás, quando as preocupações giravam em torno de temas ligados a práticas e costumes, como separação da igreja com as “coisas do mundo”, se era lícito ao crente entoar “modinhas”, ir à praia ou ao cinema, jogar futebol, ir ao estádio ou simplesmente ir à igreja vestido com a camisa do seu time preferido.  E se o crente fosse pego fazendo jogo de azar, a decisão seria a exclusão sumária. Decisão igual era para quem brigasse, pois caracterizava escândalo diante da sociedade. Discutia-se vestimentas e envolvimento em rodas sociais. Insisto em dizer que, embora fossem temas que ao seu tempo mereceram atenção, perdemos muito tempo e colhemos poucos resultados.

Hoje em dia a nossa preocupação, enquanto oficiais da igreja ao lado pastor, sem perder o foco inerente ao ofício diaconal, é administrar com muita sabedoria e espiritualidade questões infinitamente mais graves que batem às portas das igrejas, muitas de cunho ético, tais como a) homossexualidade; b) aborto; c) união homoafetiva; d) pena de morte; e) eutanásia; f) porte de arma; g) estado x igreja. Ainda assim, insisto em dizer que esta não é a missão precípua do diácono.

A minha proposta é de retorno ao princípio bíblico. As igrejas precisam continuar garimpando em seu ambiente interno homens e mulheres dispostos a abraçarem este glorioso ministério do serviço, que gozem de boa reputação, que sejam cheios do Espírito Santo e cheios de sabedoria. Certamente alguns teóricos demais e outros práticos demais, mas todos caminhando lado a lado e se complementando para a efetiva e afetiva atuação, apresentando resultados positivos.

Longe de mim a ideia de crítica, penso que do candidato a este ministério de serviço, por ocasião da formação do concílio para a tradicional sabatina, não se deve exigir conhecimentos profundos de temas tais como doutrinas bíblicas defendidos pelos Batistas, mas algo mais brando, que a meu ver aferem a capacidade do candidato. Sugiro basicamente as seguintes abordagens e cuidados: a) Experiência de conversão; b) Tempo mínimo de três anos de vida cristã em uma igreja batista; c) Relacionamento familiar (cônjuge, filhos e  parentes), vizinhos, na praça, reputação (que governe bem a sua casa); d) Relacionamento do candidato com o pastor, demais oficiais, liderança e membresia da igreja local; d) Disposição para servir não somente às mesas; f) Afinidade com a denominação batista; g) Relacionamento com outros segmentos da igreja e com a denominação Batista; h) Firmeza doutrinária e conhecimento bíblico razoável.


Jonatas Nascimento é Diácono da PIB em Centenário, Duque de Caxias-RJ. Autor da obra “Cartilha da Igreja Legal”. Este artigo foi produzido para o livro “O que pensam os líderes batistas?” – Editora Vital, 1 ed. Taubaté 2020